31 de março de 2008

Avante (?) confrades!

Dia internacional da constatação da insatisfação e incidência de toda sorte de acontecimentos estranhamente atrasados, ou seja, segunda-feira, e vossa pária a cá lhes diz: Avante!
Sutil ironia? Ácida provocação? Cáustica picardia?
Esperança, apenas... que penso que se minha avó dedicou uma vida inteira a dizer-me que saco vazio não pára em pé, algo de bom isso nos deve dizer... Assim, cheios, avancemos à lá Peloponeso. Em hiperbáto e paradoxo astral nos contradizemos a girar para trás, mais atrás e adiante... que se confundimos a ordem, alteramos o fardo e se para adiante carregamos feno ao girar à ré temos aos bolsos sementes.
Não temeis nem recuais, meu caros escrivinhadores insatisfeitos, que nossa ancestralidade é feita de dizeres e se Piafizinha canta à beira de um precipício tapado, Zoroastres bem a observa do alto de sua pedra indefectível e Calíope, cá ali ao pé do criador, se diverte e bate palmas feito o macaco que ganhou na loteria...

29 de março de 2008

O saco, cheio, o copo, vazio.

O Saco?
Muito cheio!
O coração?
Muito vazio!
Calíope diz-me: Te amo!
Zoroastres diz-me: Pare de se esconder!
Sim, por certo me são confrades!
E deitam no papel nossos melhores anseios...
O saco?
Muito Cheio!
O copo?
Vazio de novo!
Encham-no! Mas não esqueçam também de encher a taça da amargura...
Ah, não! Esta não precisa, se enche sozinha!
E o coração?
Continua vazio!
E o saco?
Continua cheio!
O sistema caiu.
Sua ligação é muito importante para nós!
Aguarde um instante, estamos transferindo para um de nossos analistas...
Não desligue!
Aperte o 5 se o saco ainda não explodiu.
E o saco continua cheio.
Piaf canta La Marseillaise...
Zoroastres ri.
Calíope se engasga.
Piaf quer ser gente grande...
Depois recua
Criança não paga a conta.
Mulheres e crianças primeiro...
Pra que crescer?
Melhor não aparecer!!!
Piaf volta a se esconder.
E o saco?
Continua cheio!
(rien à faire)

26 de março de 2008

Através do Universo

Se calhar, tudo são palavras... Tráfego, chefe, dívida, cachorro, gerente de banco, colega de trabalho, balconista de padaria... Palavras flutuando como chuva sem fim dentro de um copo de papel, diriam os besouros prateados.
Sem metafísica nem transcendência, elas se movem como um vento incansável dentro de uma caixa de correio, sobrepujando as outras - aquelas de que gostamos - e nos convidam, como na música, a ir pelo universo... Difícil afirmar que nada vai mudar nosso mundo. Sofrível declinar ao convite das palavras mágoas, enquanto se espera que as palavras luzes nos concedam a contradança.
Daí, sons de risos nos atordoam e insones aguardamos, contrafeitos e amuados, a próxima rodada. Calha de rodas e voltam a girar a luzes como um milhão de olhos de crianças. Glória ao mestre! Sorvete, água doce, serpentina, pôr-de-sol, chocolate... Só palavras.

24 de março de 2008

Bastava um motivo

Trôpegos e embriagados de vida interior, resolveram juntar-se para empanturrar a alma de palavras belas, para excitar os sentidos com frases lascivas e perturbar o espírito com dizeres saborosos. Nada fazem senão comer e beber a vida com os melhores molhos que se pode fazer com as mais raras especiarias que se pode encontrar. E dançam imóveis os tangos e fados imortais... e cantam mudos as canções sagradas da memória coletiva e acumulam arquétipos num enorme lençol branco onde se lê à sangue coagulado um SOCORRO desesperado.
Entupidos de realidades materiais improvávelmente urgentes, flutuam entre uma pilha de papél e outra, deslizando entre prioridades, conformidades e não-conformidades diárias e batem o ponto da ilusão sempre ao meio-dia e sentam-se em mesaninos imaginários para degustar o sabor provocante da constatação da vida. Na volta à labuta apertam o F5 e um outro pândego ali o espera com palavras voláteis, hilariantes, ou com profundidades abstratas e digressões errantes e chora-se e ri-se e ri-se de tanto chorar e chora-se de tanto rir e lembra-se que no teto, os balões de gás hélio são seus patrícios, comparsas.
Assim brindam os patuscos: Às palavras, belas, jogadas, jorradas da alma, vomitadas do fígado, bombeadas do coração, eternizadas pela alma! Às palavras do cientista, do cineasta, do poeta e do palhaço! Palavras, beijos, abraços, uma gaita de fole desafinada, um café fulmegante, um chocolate encantando, uma massa enfeitada e um recado de um mundo distante que só conhece quem é convidado. Completa está a vida e finita a comédia.
Bem-vindos, mes amis! Inaugurada está a nossa Confraria.