1 de outubro de 2009

Piafizinha Feliz

Coincidência ou não, a vida está me fazendo feliz...
Cessou o luto, cessou a dor...
Já chorei e sofri por tempo demasiadamente longo.

Chorei o suficiente para que não haja espaços para recordações tristes, todas as lembranças foram revividas o suficiente para tornarem-se apenas lembranças, algumas boas, outras nem tanto, mas o fato é que todas elas, são lembranças e tão somente lembranças, não têm o poder de modificar o que passou, posso tornar a elas quando quiser, mas o final do filme é sempre o mesmo, não importa quantas centenas de vezes você o assista, sempre acaba da mesma forma, como as lembranças, não importa quantas vezes revisitemo-las, são apenas lembranças imutáveis, sem poder para transformar a história, acabam sempre no mesmo trecho...

Feito isto, dou-me conta de que uma vida inteira de realidades me aguarda na próxima esquina, num primeiro momento, diminuo o passo, nunca fui muito fã da tal realidade, tomo fôlego e sigo amiúde, apreensiva na verdade, o que será que a próxima curva me reserva? Respiro fundo, aumento o ritmo dos passos, já que o do coração não tem como aumentar...

Na próxima esquina encontro um amigo, um amigo anjo, um amigo que me dedica um domingo inteiro. Não me recordo quando isto aconteceu anteriormente, mas calo-me, limito-me a ouví-lo, enquanto ouço-o, revisito-me, vejo-me e escuto-me, meu coração diminui o ritmo, mas bate tão forte, que chego a questionar-me se outras pessoas poderiam ouví-lo tanto quanto eu... e então a realidade descortina-se em minha frente, meus pequenos prazeres, como o sabor do salmão no shoyo ou o sol batendo no meu rosto, um encarte do Estadão com peças e espetáculos, pequenas imagens se formando e se fundindo caleidoscópicamente em minha cabeça, ouço atentamente cada palavra, elas têm vida, de repente, algo com uma velocidade e uma suavidade dissonantes me salta pela boca: Estou feliz! Estou muito feliz! Foi tudo o que pude dizer, meus pensamentos em cascata sobre a origem desta subita felicidade me impediram de dizer qualquer coisa além disto. Neste momento, sou incapaz de formar qualquer frase conexa, clipes muito rápidos sobre a imensa falta de vontade de ver o amanhã acontecer, fazem-me questionar como pude pensar em abrir mão desta vida deliciosa... como pude não desejá-la, quando existe salmão com shoyo e sol quentinho... a nona de Beethoven acompanha o ritmo dos meus milhares de instantâneos, que vão desde finais de semana de confinamento à banhos de chuva em finais de tarde no verão, passeiam entre olhos inchados de chorar e olhos sorridentes de alegria, vão e voltam entre extremos opostos na eterna gangorra que é meu coração...
Ouço encantada cada palavra, constato feliz, que existem boas pessoas no universo, só por hoje não tenho vontade de fugir para Marte, só por hoje, sinto que vale a pena, que há humanidade entre os humanos...
É este o estopim para o começo de uma série de acontecimentos maravilhosos, lindos e reais, no decorrer dos dias que se seguem, a sensação que tenho, é que este anjo veio me visitar e ao sair deixou as portas dos céus abertas e todas aquelas pendências, que atravancavam a vida de La Momme Piaf, foram ganhando um rumo, foram se resolvendo... em duas semanas causos que me consumiam há tempos, anos até, solucionaram-se, quase que por mágica, inacreditávelmente foram-se me apresentando solucionadas as dificuldades que me consumiam em tempo, energia e recursos...
E o sol voltou a brilhar... tão intensamente, que desabrochou o sorriso em meus lábios e todo o meu ser foi tomado por um ânimo há muito esquecido, sonhos estão encontrando atalhos para a realidade, permito-me sonhar novamente, planejo o recomeço do ciclo onde parou, com os pés tão firmes na realidade, com tanta consciência do que é possível e do que é "viajar na maionese", que nem me assusto com a dimensão das coisas que almejo... sei o que quero, e me considero plenamente capaz de conquistá-lo, pois só depende de mim, da minha vontade, retomo planos abandonados para a próxima década, sei exatamente onde quero estar daqui dez, quinze, vinte anos, mas sei também que as condiçoes adversas do caminho podem traçar outras rotas e estou aberta a tudo isto, sem perder o fóco.
Atribuo todo este sucesso e toda esta felicidade que inevitávelmente o acompanha a um fato simples: quando fiz as pazes com a vida, a vida começou a acontecer... quando deixei que a felicidade imiscuisse-se em meu drama, o sol brilhou mais forte e afastou qualquer nuvem que pudesse entristecer-me o olhar.
Simples assim: a felicidade é uma senhora de bons modos, que não se apresentará em nossas vidas, a menos que seja convidada.

Piafizinha, feliz e sorridente, como não conseguiu ser nos últimos anos...

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