24 de agosto de 2008

O bom filho...

Ah... domingo! Que dia melhor para ensaiar começar algo? Mesmo que esse começar signifique retomar, tornar, reatar... Uma vitrola num corredor semi-iluminado toca uma canção antiga, algo em que se ouve dizer "não, meu amor, você não está sozinha". Nos dedos um cigarro que parece já ter sido fumado, num ensaio prepotente, depois cuidadosamente refeito, agora novamente aceso e tragado com um desdém algo desesperado.
Qual vazio ainda não foi anunciado, enunciado, exposto, retratado?
Engraçado pensar que ao avesso a vida é sempre mais plausível. Que em verso toda efemeridade se solidifica. Que no acaso toda probabilidade se desvanece. Que em instantes toda a amargura se dissolve. Que em fotografias toda felicidade se falsifica.
Do alto de um edifício qualquer que construi para os meus sonhos, percebo entre tristronha e orgulhosa, que sempre e sempre são os meus fantasmas que chegam pontualmente para o chá da tarde. Já não me recordo se fui eu quem os convidei, ou se o não se descuidou e a porta esteve sempre por fechar. O fato é que a cronologia supera com destreza o afago, as paredes abafam com maestria as conversas, os fundos dos copos ressecam com entusiasmo os resíduos de todas as bebidas. No entanto, algo que suponho ser minha alma tem sempre uma chaleira fervente para oferecer às minhas impossibilidades e todas elas vêm sentar-se ao redor de mim, contando-me das coisas que não fiz, das conversas que não concluí, das respostas espertas que deixei de dar àqueles que me substimaram. Lembram-me também dos passos cautelosos ou decididos que deixei de dar na direção contrária, ou na direção certa, conforme devia.
E aquela música parece-me definitivamente suspensa em seu refrão auto-imune, tranqüilizando as minhas incertezas, assegurando-me de que não importa qual sala-de-estar meu interior habite, sempre haverá algo por concluir...

Um comentário:

Piaf disse...

palmas à donaCalíope... hj mais do que fantasmas chegara à hora do chá, ainda que quase algo remoto, perduramos além das imaginações... obrigada pelas letras... vivas... amoteinclusivehojetudojuntosenãonãotemgraçaalgumamesmo...